Dois frascos podem dizer "extrato de cogumelo" no rótulo e conter coisas bastante diferentes por dentro. A distinção mais importante — e a menos explicada ao consumidor — não está na espécie do cogumelo, mas em qual parte do organismo foi usada como matéria-prima: o micélio ou o corpo de frutificação.
Essa diferença não é um detalhe de nomenclatura. Ela determina a concentração de beta-glucanas, a presença de certos compostos bioativos e até quanto de amido inerte entra na conta do produto final. Friedman (2015), em ampla revisão publicada no Journal of Agricultural and Food Chemistry, catalogou cerca de 70 compostos bioativos distribuídos entre corpo de frutificação e micélio de Hericium erinaceus — deixando claro que as duas partes não são intercambiáveis.
Este artigo explica, sem sensacionalismo, o que separa micélio de corpo de frutificação, por que as beta-glucanas são o parâmetro que a literatura usa para medir essa diferença, e como ler um rótulo de extrato de cogumelo com mais critério. O objetivo não é declarar um vilão e um herói, mas dar ao leitor as ferramentas para entender o que está comprando.
O que é micélio e o que é corpo de frutificação
Corpo de frutificação: o cogumelo que você vê
Um cogumelo é a estrutura reprodutiva de um fungo — a parte visível, que emerge para liberar esporos. Na linguagem técnica, essa estrutura é o corpo de frutificação (ou fruto). É o "cogumelo" no sentido popular da palavra: o chapéu, o pé, as estruturas que colhemos.
Micélio: a rede que cresce no substrato
O micélio, por outro lado, é a rede de filamentos (as hifas) que cresce no substrato — no solo, na madeira ou, em cultivo comercial, em grãos. É a fase vegetativa do fungo, comparável às raízes e ao caule de uma planta, enquanto o corpo de frutificação seria análogo à flor ou ao fruto.
Ambas as partes contêm compostos de interesse, mas em perfis diferentes. E há uma distinção comercial que muda tudo: enquanto o corpo de frutificação é colhido e desidratado como matéria-prima relativamente pura, boa parte do micélio disponível no mercado é cultivada sobre grãos e não é separada deles antes da moagem. É aí que a conversa sobre qualidade começa.
Beta-glucanas: a diferença que dá para medir
Beta-glucanas são polissacarídeos presentes na parede celular dos fungos e um dos principais grupos de compostos estudados em cogumelos funcionais. Elas são também o parâmetro mais objetivo para avaliar a "densidade" de cogumelo real em um extrato — justamente porque podem ser medidas em laboratório.
McCleary e Draga (2016), pesquisadores da Megazyme, publicaram no Journal of AOAC International um método analítico validado para quantificar beta-glucanas em cogumelos e produtos à base de micélio. O método é importante porque separa as beta-glucanas (de origem fúngica) das alfa-glucanas — categoria que inclui o amido dos grãos usados no cultivo de micélio. Sem essa separação, um teste genérico de "polissacarídeos totais" pode contar o amido do grão como se fosse composto ativo do cogumelo.
Os números que a análise revela são expressivos. Levantamentos de indústria conduzidos com esse método — notadamente os do laboratório Nammex, referência no tema — indicam que extratos de corpo de frutificação costumam apresentar teores de beta-glucanas na faixa de 20% a 40% ou mais, enquanto produtos de micélio cultivado em grão frequentemente ficam entre 1% e 7%, chegando em alguns casos a valores próximos de zero. A contrapartida é o amido: parte relevante do peso de um produto de micélio-em-grão pode ser alfa-glucana proveniente do cereal, não do fungo.
O que diz a ciência sobre as partes do cogumelo
A pesquisa sobre Hericium erinaceus (juba de leão) oferece um exemplo claro de por que corpo de frutificação e micélio não são a mesma coisa em termos de composição.
Friedman (2015) — revisão publicada no Journal of Agricultural and Food Chemistry. Consolidou a literatura sobre a química de corpos de frutificação e micélios de H. erinaceus, documentando cerca de 70 compostos bioativos e observando que hericenonas foram identificadas nos corpos de frutificação e erinacinas nos micélios. DOI: 10.1021/acs.jafc.5b02914
Wang et al. (2025) — estudo no Journal of Natural Products. Utilizando análise por LC-MS/MS comparada a compostos de referência sintetizados, os pesquisadores confirmaram que as hericenonas ocorrem naturalmente nos corpos de frutificação de H. erinaceus, reforçando a associação entre esse grupo de compostos e o fruto. DOI: 10.1021/acs.jnatprod.4c01018
Li et al. (2018) — revisão publicada em Behavioral Neurology. Examinou o micélio enriquecido com erinacinas como objeto de pesquisa em neuroproteção, descrevendo estudos pré-clínicos que investigam a indução de fator de crescimento nervoso (NGF) — e ressaltando que a tradução desses achados para a clínica ainda apresenta desafios. DOI: 10.1155/2018/5802634
McCleary e Draga (2016) — artigo metodológico no Journal of AOAC International. Descreveu o procedimento de hidrólise ácida controlada que permite quantificar separadamente beta-glucanas fúngicas e alfa-glucanas (amido/glicogênio), base técnica para avaliar diluição por grão em produtos de micélio. DOI: 10.5740/jaoacint.15-0289
O que esse conjunto de estudos torna evidente é uma nuance importante: hericenonas estão associadas ao corpo de frutificação e erinacinas ao micélio. São grupos de compostos diferentes, com vias de estudo distintas. Ou seja, a escolha entre fruto e micélio não é simplesmente "mais" ou "menos" do mesmo — são perfis de composição que a literatura descreve de maneira separada.
O problema do micélio-em-grão: quando o amido entra na conta
Vale ser preciso para não cair em simplificação: micélio, por si só, não é sinônimo de baixa qualidade. Em pesquisa, o micélio cultivado por fermentação líquida — e depois separado do meio de cultura — é uma matéria-prima legítima, e é dele que se extraem as erinacinas estudadas pelos grupos citados acima.
O ponto sensível é outro: a forma mais comum de micélio no mercado de suplementos é o micélio cultivado sobre grãos e desidratado junto com eles (conhecido pela sigla em inglês MOG, mycelium-on-grain). Nesse formato, o micélio cresce colonizando arroz ou aveia, e o conjunto — micélio mais grão — é seco e moído sem separação. Como as hifas penetram e se entrelaçam ao cereal, separar um do outro no produto final é, na prática, inviável.
O resultado é um pó em que uma fração relevante do peso é amido do grão, não composto fúngico. Isso explica os teores baixos de beta-glucanas medidos nesses produtos: não é que o método de análise "não encontre" o ativo — é que há menos cogumelo real por grama. Um estudo de composição pode registrar, nesses casos, mais alfa-glucana (amido) do que beta-glucana (parede celular do fungo).
Por que o teor de beta-glucanas cai no micélio-em-grão
O corpo de frutificação evita esse dilema pela própria natureza da matéria-prima: é o cogumelo colhido, desidratado e processado como tal. Não há grão de cultivo incorporado ao pó final, e é por isso que os teores de beta-glucanas medidos tendem a ser substancialmente mais altos.
Como ler um rótulo de extrato de cogumelo
Com esses conceitos em mãos, alguns pontos ajudam o consumidor a interpretar o que está comprando:
Procure a parte usada. Rótulos transparentes informam se o produto usa "corpo de frutificação" (ou "fruiting body") ou "micélio". A ausência dessa informação é, por si só, um dado.
Desconfie de "polissacarídeos totais" como selo de qualidade. Como o método de McCleary e Draga (2016) mostra, polissacarídeos totais podem incluir amido do grão. O parâmetro mais informativo é o teor de beta-glucanas especificamente.
Entenda a lógica da extração. A parte do cogumelo é uma variável; o método de extração é outra. Beta-glucanas solubilizam melhor em água, enquanto compostos como as hericenonas têm maior afinidade por álcool. Por isso, parte da literatura de farmacognosia trabalha com extrações que combinam solventes complementares — a chamada dupla extração — para abranger compostos de polaridades diferentes.
Rastreabilidade é contexto. Saber a origem da matéria-prima, a espécie exata e o processo de produção diz mais sobre um produto do que qualquer alegação genérica na embalagem.
Considerações importantes para o leitor
Alguns cuidados de interpretação valem para todo este tema:
Composição não é promessa de efeito. Um teor mais alto de beta-glucanas descreve a densidade de cogumelo real na matéria-prima; não constitui, por si, garantia de resultado para nenhuma pessoa. Os estudos citados investigam mecanismos e composição — não estabelecem eficácia clínica definitiva.
Fruto e micélio são perfis distintos. Como a literatura mostra, hericenonas e erinacinas pertencem a partes diferentes do organismo. Nenhuma das duas partes contém "tudo"; elas contêm coisas diferentes, e a comparação honesta reconhece isso.
Evidência ainda em construção. Boa parte dos achados sobre compostos do Hericium erinaceus vem de modelos celulares e animais. A tradução para desfechos clínicos em humanos permanece, na descrição dos próprios pesquisadores, um desafio em aberto.
Não substitui orientação profissional. Cogumelos funcionais são alimentos, não medicamentos. Qualquer questão de saúde deve ser avaliada por profissional qualificado, e nenhum extrato substitui essa avaliação.
Referências
- Friedman, M. (2015). Chemistry, nutrition, and health-promoting properties of Hericium erinaceus (lion's mane) mushroom fruiting bodies and mycelia and their bioactive compounds. Journal of Agricultural and Food Chemistry, 63(32), 7108–7123. DOI: 10.1021/acs.jafc.5b02914
- McCleary, B. V., & Draga, A. (2016). Measurement of β-glucan in mushrooms and mycelial products. Journal of AOAC International, 99(2), 364–373. DOI: 10.5740/jaoacint.15-0289
- Li, I.-C., Lee, L.-Y., Tzeng, T.-T., Chen, W.-P., Chen, Y.-P., Shiao, Y.-J., & Chen, C.-C. (2018). Neurohealth properties of Hericium erinaceus mycelia enriched with erinacines. Behavioral Neurology, 2018, 5802634. DOI: 10.1155/2018/5802634
- Wang, J., Wu, J., Yamaguchi, R., Nagai, K., Liu, C., Choi, J.-H., Hirai, H., Xie, X., Kobayashi, S., & Kawagishi, H. (2025). Uncovering hericenones from the fruiting bodies of Hericium erinaceus through interdisciplinary collaboration. Journal of Natural Products, 88(1), 80–85. DOI: 10.1021/acs.jnatprod.4c01018
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Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não substitui orientação médica, diagnóstico ou tratamento. Procure sempre um profissional de saúde qualificado.